Gabriela Nobre

Satellite Of Love

In Uncategorized on March 15, 2012 at 8:24 pm

Me pergunto se Satellite Of Love (Lou Reed, “Transformer”, 1972) não é uma resposta a “Life on Mars?” (Bowie, “Hunky Dory”, 1971). Uma vez que os versos “Satellite’s gone way up to Mars/Soon it will be filled with parking cars” parece responder ironicamente a “Is there life on Mars?”.

 

Satellite of Love

Life on Mars?

 

Love comes close

In Uncategorized on July 27, 2011 at 7:47 pm

Na segunda metade do ano de 2009 eu fiquei muito feliz quando ganhei de um grande amigo um disco que tinha acabado de ser lançado “Love comes close” do Cold Cave. A primeira vez que eu vi o nome do projeto escrito, achei que fosse uma banda de metal. Não era.

O Cold Cave plaina entre a sujeira intencional e a super  produção inevitável de uma parte da música eletrônica dançante de hoje em dia. Considerada uma banda de synthpop, (o que não significa muita coisa, mas quer significar algo lá pelo registro de uma mistura de post punk e new wave a meu ver), para mim, o Cold Cave sempre foi um projeto (não consigo chamá-los de banda) ou uma grande fonte de referências: vocais impostados como os de Bowie, trechos que lembram Joy Division e New Order, timbres de sintetizadores mega datados. Seja qual for o jogo de referências que o CC propõe, ele não engana: é um projeto muito bem inserido no tempo que habita.

O CC tem 3 fases até aqui; todas inteiramente delineadas pelos 3 discos oficias e de estúdio:  Cremations, de 2009, que é uma compilação de material já lançado anteriormente em cassete; Love comes close, do mesmo ano, e o último Cherish the light years, de 2011. Os dois últimos foram verdadeiros presentes quando ouvi.

LOVE COMES CLOSE O DISCO E A FAIXA

Love comes close é um disco belamente conciso, homogêneo e direto. Sintetizadores vertiginosos e letras drop fall. Um disco brilhante.

O que eu mais gosto sobre ele são as maravilhosas letras que o CC conseguiu produzir para ele. Pequenos poemas de tom quase infantil devido às rimas bobas e meio fora do lugar, inesperadas. Eu sempre me pergunto o motivo da escolha dessas rimas que são uma constante nesse disco.

Ele é euforicamente  introspectivo. É um disco que implode. A experiência que ele promove  é a de um real estranhamente delirante, transfigurado pelas cortinas porosas que os sintetizadores criam. O som não é forte e nem fraco, é poroso mesmo, como um osso bem velho. Você pode atravessas a essas texturas de sintetizadores e a essas texturas de sons insistentes das guitarras (lição ensinada pelo post punk) e o que você encontra do outro lado é o chacoalhamento para o qual as letras te arremessam. Minha preferida, a estranhíssima The laurels of erotomania (Os louros da erotomania). Você consegue ouvir a música se clicar no título dela, ok? E o mesmo também é possível quando a letrinha aparece de outra cor ao longo de texto:

I’m going to put you in the hospital

People pay attention to me,
I don’t know why.
You will learn to love me,
I don’t know why.
We will make history,
I don’t know why.

People pay attention to me,
People pay attention to me,
People pay attention to me.

E a emiliedickinsoniana The trees grew emotions and died (aqui fica clara a rima que comentei acima e atentem para o solo de guitarra que particularmente adoro)

I

Buried

Seeded

Lies

And

So

The

Trees

Grew

Emotions

And

Died

And

Now

You

Can’t

Breathe

Goodby

Oh

Oh

LOVE COMES CLOSE A LETRA

O que está em jogo nessa letra é o peso e a presença de dois (duas coisas, duas pessoas), ou o um dobrado em um outro. Há algum movimento, ou um gesto intenso/tenso: o sol que encobre a luz, tal como a vida que encobre a pele (sun sheds the light as the light sheds the skin) mas nessa mesma medida em que o gesto é encenado, ele  também se vê desfeito, porque  tudo que está mudando torna-se “inalterável” novamente: everything changing will unchage again.

O amor é personificado e se aproxima (love comes close), mas como é personificado, é como se tivesse vontade própria e então ele te dispensa (but chooses to spare me); assim como a morte, personificada também, que se aproxima (death comes close) mas desiste de te levar (but ceases to take me).

As cenas de movimento que essa letra compõe, sempre quase contrárias embora complementares, são o seu centro: “look outside/ stay inside”  (look outside/ world is exploding/ stay inside/ so never knowing). O que passa ao lado dessa estrutura sempre dual é um sentido, ou um valor, como prefiro dizer, de uma constatação: a de que os movimentos se encenam. Todos praticamos o(s) movimento(s), mas as ondas que essa movimentação causa são fundas e quase sempre deseperadas: “eu quero torcer mais fundo a faca, para sugar o amor dos corações nos quais acreditei”. Então: o que vai, volta, o que termina, recomeça, mas a urgência é a condição dos espectadores que assistem e encenam essas movimentações.

Essa faixa foi e ainda é um hit no meu circulo de amizades. Se eu falei do New Order acima, falo agora do Joy Division: primeiro, porque não se pensa em um sem se lembrar do outro por razões óbvias; e segundo, porque Love comes close , quer tenha sido ou não a intenção de seus compositores, está enrodilhada a Love will tear us apart. A começar pelo “amor” que em ambas as faixas, desde seus títulos, se tornam personagens da letra: de uma letra à outra, de Love will tear us apart a Love comes close, o amor separa e o amor se aproxima… Mas isso já é um outro post.

O que fica claro depois de ler essas personificações, verdadeiras encarnações de abstrações, é o quanto se consegue manipulá-la, deslocá-la e movê-la na linguagem, e o quanto ela ainda é somente visceral e inefável enquanto causadora de ondas e maremotos que movem e removem.

Poslúdio

In Uncategorized on April 1, 2011 at 1:23 am

Poslúdio, peça de J.-P. Caron, não poderia ter outro título. Ela foi o produto catalisador do final de um ciclo na vida pessoal do compositor. Se pensarmos Poslúdio como composição integrante de um ciclo ainda maior do que este que fechou, Poslúdio foi também o prelúdio de um outro tempo,  do um tempo que ele iniciou.

Mas Poslúdio não é somente o espiral que eu talvez tenha sugerido acima. Poslúdio é em linha reta. Ao menos para os meus ouvidos.

A imagem de dados sendo lançados é, em minha experiência, a primeira imagem da  música. Os dados lançados como as notas dispersas que cercam o ouvinte e capturam sua escuta. Por isso é que a imagem dessa dispersão inicial é a de um lance de dados. Poderia ser uma imagem mais bela… a de uma constelação disposta ao longo de um vasto céu, vista por olhos incapazes de fixar-se em uma delas somente; mas não, a captura da escuta marca um gesto vigoroso, que ultrapassa a gentil candura do que poderia aparecer uma simples dispersão. O que estava então apenas sugerido pelas notas que vão surgindo, senta-se à sua frente.

Mais alguns segundos… a jogada encerra, emperra a escuta no pseudo pontilhado dessas notas. Não tenho certeza do que eu escuto, mas  acho que é uma espécie de duelo entre notas do piano e notas de guitarra. Não, não um duelo, é uma luta, talvez a busca de um instrumento pelo outro, mas os dois corpos não chegam a se atracar.

Um som se coloca numa altura mais alta e mais duradoura do que as demais. Uma nota breve e levemente sustentada do piano. Um ponto (fixo) nesse discurso. Um som ruidoso da guitarra cessa a luta à distância. Os dois, guitarra e piano, geram uma tensão que descamba em uma espécie de segundo momento da música: antes luta à distância, é agora um afrontamento tátil. O que antes estava em aparente dispersão, soando em fluxo desordenado,  segue trajeto em linha reta.

A guitarra é como se perfurasse, “morde e assopra”,  torturando sem intenção de aniquilar. O piano martela, insistente.

Sem dúvidas, trata-se de uma luta. Os sons parecem estar dispostos de forma a imitar um ao outro, quase.  No entanto, o que se afirma é o desencontro. Mas ainda em confronto direto, os gestos são rapidamente e quase que por acidente, espelhados por vezes. A guitarra  inicia um som espiralado que se estica, retirando-se, um som que caminha para extinguir-se (4m34s). A luta acabou?

O piano então, arrefecido, soa quase como harpa, tímido; a guitarra, imitando fênix, ressurge do seu quase silêncio. Meu trecho preferido: o que se ouve primeiro é a um ressoamento na guitarra, e não a um som propriamente (5m13s), que, via de regra, deveria surgir primeiro e depois (re)soar.

Os instrumentos parecem assumir uma outra identidade: a guitarra vira uma espécie de sino (como quando um sino badala, e já não distinguimos onde e quando seus sons terminam; ou nem o que é som e o que é o ressoamento de som), e o piano uma espécie de harpa (o piano queria desaparecer, acho, e toca baixo, desistente).

O piano encontra então uma saída: a melodia de a warm place (nine inch nails, the downward spiral, 1994), tocada em gestos ligeiros mas imprecisos, vacilantes… guitarra e piano não conseguem se encontrar, e isso é um fato. Cada um respira à sua forma, como é possível, em notas únicas, uma de cada vez, mas que se esbarram vez ou outra.

O piano encontra-se e desencontra-se da melodia de a warm place; ou, a warm place não é ou está em lugar algum. Os instrumentos seguem cegos, tateando….

O fim depois disso chega rápido e não parece um fim. Os instrumentos somente abdicaram de seus gestos, e é isso.

Mas as notas de fato cessaram e a peça chegou a um fim. Um fim é também uma finalidade. E é essa finalidade e não a um simples final que Poslúdio chega, acho. Através dessa linha reta tão disfarçada, trepidante e incerta. A finalidade de Pósludio é ocupar, em seu término, o lugar de chegada que é também o de partida. Pósludio se faz prelúdio então… e assim pôde e pode seguir.

 

 

 

 

O texto fala de Poslúdio interpretada por Claudia Castelo Branco, piano, e Marcos Campello, guitarra.

A gravação é da Bienal de Música Contemporânea de novembro de 2009, na Sala Cecília Meireles.

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