Poslúdio, peça de J.-P. Caron, não poderia ter outro título. Ela foi o produto catalisador do final de um ciclo na vida pessoal do compositor. Se pensarmos Poslúdio como composição integrante de um ciclo ainda maior do que este que fechou, Poslúdio foi também o prelúdio de um outro tempo, do um tempo que ele iniciou.
Mas Poslúdio não é somente o espiral que eu talvez tenha sugerido acima. Poslúdio é em linha reta. Ao menos para os meus ouvidos.
A imagem de dados sendo lançados é, em minha experiência, a primeira imagem da música. Os dados lançados como as notas dispersas que cercam o ouvinte e capturam sua escuta. Por isso é que a imagem dessa dispersão inicial é a de um lance de dados. Poderia ser uma imagem mais bela… a de uma constelação disposta ao longo de um vasto céu, vista por olhos incapazes de fixar-se em uma delas somente; mas não, a captura da escuta marca um gesto vigoroso, que ultrapassa a gentil candura do que poderia aparecer uma simples dispersão. O que estava então apenas sugerido pelas notas que vão surgindo, senta-se à sua frente.
Mais alguns segundos… a jogada encerra, emperra a escuta no pseudo pontilhado dessas notas. Não tenho certeza do que eu escuto, mas acho que é uma espécie de duelo entre notas do piano e notas de guitarra. Não, não um duelo, é uma luta, talvez a busca de um instrumento pelo outro, mas os dois corpos não chegam a se atracar.
Um som se coloca numa altura mais alta e mais duradoura do que as demais. Uma nota breve e levemente sustentada do piano. Um ponto (fixo) nesse discurso. Um som ruidoso da guitarra cessa a luta à distância. Os dois, guitarra e piano, geram uma tensão que descamba em uma espécie de segundo momento da música: antes luta à distância, é agora um afrontamento tátil. O que antes estava em aparente dispersão, soando em fluxo desordenado, segue trajeto em linha reta.
A guitarra é como se perfurasse, “morde e assopra”, torturando sem intenção de aniquilar. O piano martela, insistente.
Sem dúvidas, trata-se de uma luta. Os sons parecem estar dispostos de forma a imitar um ao outro, quase. No entanto, o que se afirma é o desencontro. Mas ainda em confronto direto, os gestos são rapidamente e quase que por acidente, espelhados por vezes. A guitarra inicia um som espiralado que se estica, retirando-se, um som que caminha para extinguir-se (4m34s). A luta acabou?
O piano então, arrefecido, soa quase como harpa, tímido; a guitarra, imitando fênix, ressurge do seu quase silêncio. Meu trecho preferido: o que se ouve primeiro é a um ressoamento na guitarra, e não a um som propriamente (5m13s), que, via de regra, deveria surgir primeiro e depois (re)soar.
Os instrumentos parecem assumir uma outra identidade: a guitarra vira uma espécie de sino (como quando um sino badala, e já não distinguimos onde e quando seus sons terminam; ou nem o que é som e o que é o ressoamento de som), e o piano uma espécie de harpa (o piano queria desaparecer, acho, e toca baixo, desistente).
O piano encontra então uma saída: a melodia de a warm place (nine inch nails, the downward spiral, 1994), tocada em gestos ligeiros mas imprecisos, vacilantes… guitarra e piano não conseguem se encontrar, e isso é um fato. Cada um respira à sua forma, como é possível, em notas únicas, uma de cada vez, mas que se esbarram vez ou outra.
O piano encontra-se e desencontra-se da melodia de a warm place; ou, a warm place não é ou está em lugar algum. Os instrumentos seguem cegos, tateando….
O fim depois disso chega rápido e não parece um fim. Os instrumentos somente abdicaram de seus gestos, e é isso.
Mas as notas de fato cessaram e a peça chegou a um fim. Um fim é também uma finalidade. E é essa finalidade e não a um simples final que Poslúdio chega, acho. Através dessa linha reta tão disfarçada, trepidante e incerta. A finalidade de Pósludio é ocupar, em seu término, o lugar de chegada que é também o de partida. Pósludio se faz prelúdio então… e assim pôde e pode seguir.
O texto fala de Poslúdio interpretada por Claudia Castelo Branco, piano, e Marcos Campello, guitarra.
A gravação é da Bienal de Música Contemporânea de novembro de 2009, na Sala Cecília Meireles.